• Cláudia Vidigal

Transtorno do pânico – quando o corpo transborda.

Atualizado: 12 de Jan de 2018



Em minha experiência como psicóloga clínica é muito comum receber pacientes encaminhados por convênios que apresentam quadro do Transtorno do Pânico (TP).

Não trabalho com generalizações, mas sim com a singularidade de cada pessoa que procura a minha ajuda. Mas, em minha pratica clínica, dentre os pacientes que apresentam o quadro do TP, constato algumas características bastante comuns entre eles.

De maneira geral, são pessoas que chegam ao consultório apresentando para mim os seus sintomas (que, como veremos a seguir, podem ser variados). Nas primeiras entrevistas, tendem a descrever os sintomas que as fazem sofrer e que tanto tomam conta de suas vidas. Falam muito sobre a história dos seus sintomas, mas pouco das histórias de suas vidas. Além disso, percebo, em seus discursos, a existência de uma forte expectativa de cura após terem peregrinado por muitos consultórios médicos e passado por vários exames, depositando no psicólogo o último recurso. Digo ¬psicólogo¬ porque, em geral, não sabem muito bem o que é e como funciona o tratamento psicológico, que é a psicoterapia. Por exigência dos planos de saúde, os pacientes precisam de um “pedido ou encaminhamento médico” para terem as sessões com psicólogo autorizadas. Por essa razão, chegam tendo passado pelos consultórios dos médicos especialistas que procuraram, na maior parte das vezes o clínico geral e ou ginecologista. Algumas vezes, chegam já tendo sido avaliados por psiquiatra e sob tratamento farmacológico.

Percebo que, os que chegam encaminhados por psiquiatra, apresentam-se mais esclarecidos e orientados a respeito da fenomenologia da manifestação sintomática do transtorno do pânico e a respeito do tratamento envolver medicamentos e psicoterapia. No entanto, os que são encaminhados por outras especialidades, tendem a chegar mais desorientados em relação ao que está acontecendo com eles e a respeito do tratamento, demonstrando não saberem muito bem por que estão diante de um psicólogo.

Percebo também que são pessoas que tendem a apresentar (não é uma regra! É apenas a percepção que a minha experiência clínica vem constatando) características de serem pessoas altamente controladoras, defendidas emocionalmente (tendem a guardar emoções), extremamente exigentes (consigo próprias e com a alteridade) e com baixo nível de tolerância à frustrações. Em seus discursos, após ultrapassada a apresentação da história dos sintomas, constato frequentemente que há, sempre, em suas vidas, uma história de intenso sofrimento nas relações sociais debaixo da manifestação sintomatológica que, na maior parte das vezes, funcionam como alerta e pedido de socorro expressado pela via do corpo. São pessoas que vivenciam conflitos importantes em seus relacionamentos interpessoais e tendem a lidar com as dificuldades e os sofrimentos advindos de tais conflitos por meio de internalizações. São os famosos “pôr a sujeira debaixo do tapete” , “empurrar com a barriga”, “fazer de conta que não viram ou não ouviram”. Fazem isso por muito tempo até que, um dia, o copo (ou seria corpo?) transborda.

As manifestações sintomáticas apresentadas pelas pessoas que tem TP são responsáveis por níveis altos de incapacidade social, profissional e física, por gastos econômicos consideráveis e pelo número alto de consultas médicas. São pessoas que, em razão dos sintomas que manifestam, podem se ausentar com frequência do trabalho ou escola para visitas ao médico ou ao serviço de urgência, o que pode levar ao desemprego ou evasão escolar.

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5ª edição (DSM-V), o transtorno do pânico (TP) é um dos transtornos de ansiedade, caracterizado por ataques de pânico recorrentes e inesperados acompanhados por uma persistente preocupação ou apreensão a respeito de ataques de pânico adicionais ou sobre as suas consequências (perda do controle, ter um ataque cardíaco, “enlouquecer”) e uma mudança desaptativa significativa no comportamento relacionada aos ataques (comportamentos que têm por finalidade evitar ter ataques de pânico, como a esquiva de exercícios ou situações desconhecidas).

Um ataque de pânico não deve ser consequência de medicamentos ou doenças físicas e não deve fazer parte do quadro clinico de outros transtornos psiquiátricos.

O ataque de pânico é um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que pode ocorrer a partir de um estado calmo ou de um estado ansioso, que alcança um pico em minutos e durante o qual ocorrem quatro (ou mais) dos seguintes sintomas:

1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia.

2. Sudorese.

3. Tremores ou abalos.

4. Sensações de falta de ar ou sufocamento.

5. Sensações de asfixia.

6. Dor ou desconforto torácico.

7. Náusea ou desconforto abdominal.

8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio.

9. Calafrios ou ondas de calor.

10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento).

11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar distanciado de si mesmo).

12. Medo de perder o controle ou “enlouquecer”.

13. Medo de morrer.

Os ataques de pânico podem ocorrer:

· espontaneamente, quando não está associado a nenhuma situação desencadeadora conhecida

· situacionalmente, quando o indivíduo se depara ou se expõe a certas situações, como por exemplo, trânsito, multidões, etc.

· durante a noite, caracterizados por despertar súbito, terror e hipervigilância.

· Por contextos emocionais específicos, como por exemplo, desentendimentos familiares ou ameaça de separação conjugal.

As causas de sua manifestação ainda não são conhecidas, mas pesquisas evidenciam que o TP está associado a interação de fatores genéticos, de desenvolvimento e ambientais que resultam em alterações no funcionamento de algumas áreas cerebrais.

O tratamento inclui fármacos e psicoterapia. A opção pelo tratamento farmacológico, psicoterápico ou combinação dos dois vai depender de muitos fatores como intensidade da interferência do Transtorno do Pânico na vida do paciente, disponibilidade do tratamento psicoterápico, presença de comorbidades, preferência do paciente, entre outros.

Entre as opções medicamentosas no tratamento estão inibidores seletivos de receptação de serotonina (ISRSs), antidepressivos tricíclicos (ADTs), inibidores da monoaminoxidase (IMAOs), inibidores de receptação da serotonina e noradrenalina (IRSNs) e ansiolíticos.

Referências bibliográficas:

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais [recurso eletrônico]: DSM-5 / [American Psychiatric Association; tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento ... et al.]; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli ... [et al.]. – 5. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2014.

Valença, A. M. Transtorno de pânico: aspectos psicopatológicos e fenomenológicos. Revista Debates em Psiquiatria Jul/Ago 2013 ano 3, número 4.

Zuardi, A. W. Características básicas do transtorno do pânico. Medicina (Ribeirão Preto, Online.) 2017;50(Supl.1),jan-fev.:56-63.

Cordioli, A. V. e col. Psicoterapias: abordagens atuais. 3. Ed. – Porto alegre: Artmed, 2008.

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